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E o tempo levou...

                 O portão de ferro, castanho-avermelhado, ainda lá está, mas faz tempo que ninguém o atravessa, pois as silvas e ervas dan...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

“A Vida em Pedaços Repartida”


I – Em Busca das Raízes (1946-1955)


            Naqueles dias, a vida era o verde dos pinheiros, o cheiro dos eucaliptos, e o dourado dos campos de milho prontos para a colheita, a perder de vista. A vida era uma estrada comprida, muito comprida, reta e íngreme, que ligava Gião a Fagilde. De um ponto ao outro (dois morros fronteiriços), uma longa descida, o vale e uma subida que, de tão inclinada, fazia lembra um enorme V. Creio que ainda faz. Olhando de Gião em direção a Fagilde, a inclinação dava a impressão de ser impossível de se percorrer aquela estrada, sem resvalar de costas, e despencar no vale.
Naqueles dias, era o fumo, saindo de chaminés esparsas, entre imensos e loiros campos de trigo prontos para a colheita, no mês de Maio, e o luar de Agosto prateando o casario da pequena aldeia, enquanto nós, sentados no Cruzeiro, do Calvário, enfiávamos agulhas à luz da lua e os cães latiam mensagens de alerta (ou quem sabe do quê?) a outros cães.  
Contávamos histórias de ladrões e de ciganos (o terror da época), e sentíamos o temor remoto de que a próxima caravana de ciganos, levasse alguma criancinha da aldeia (nos levasse). Havia ainda temor e desejo de encontrar a pestana do Zé do Telhado, escondida na fechadura da porta, marca cruel do Robin Hood português, que roubava os ricos para dar aos pobres, passara por ali. Talvez símbolo do desejo de aventura, da quebra de regras.
Naqueles dias, não tínhamos medo de perder tudo, pois nada tínhamos e, até a fome rondando perto, vista agora, à distância, parece um martírio romântico!
Naqueles dias, não havia televisão despejando notícias, anúncios, novelas, mentiras, verdades, vinte e quatro horas por dia, nem Internet, nem wi-fi, nem celulares que nos obrigassem a ficar colados, de olhos vidrados, buscando na telinha, na telona, sabe Deus o quê. A tela que tínhamos na frente era o verde dos campos, das matas e o azul do céu a perder de vista. Não havia telefone sequer! As cartas chegavam, vagarosamente, trazendo notícias de terras longínquas. Não havia bonecas falantes, nem carrinhos movidos a controle remoto. Construíamos e inventávamos nossos brinquedos e éramos felizes, ou, pelo menos, acreditávamos que o éramos!
Naqueles dias, não sabíamos mais do sofrimento humano, do que o daquela pobre mulher, mãe devotada, a cuidar, sozinha, do filho paralítico, ajudada pelos vizinhos, quando necessitava de ficar mais horas fora de casa, cavando o magro sustento dos dois. Não havia mendigos caídos à beira da estrada, dormindo ao relento. Os pobres tinham sua dignidade, e vergonha de se expor e sempre arrumavam algum trabalho, a troco de comer e de dormir, como a senhora Maria da Joana, costureira que, já muito idosa, ainda ficava alguns dias na casa de suas antigas clientes. Os olhos já mal enxergavam e as mãos, muito trêmulas, costuravam uns panos velhos, para justificar o magro salário, a comida. Ninguém se atrevia a dizer que aquele era um trabalho inútil.
Naqueles dias, apenas víamos os dias se fazerem noite, e de novo dia, numa sucessão constante, enquanto corríamos soltos pelos campos, até nos perdermos, para logo nos acharmos, orientados pelo canto longínquo das ceifeiras. Não havia bússola, apontando nortes, mas achávamos o caminho de volta, ao entardecer, sob um céu vermelho-alaranjado, e ao som do chiado dos carros de bois caminhando, pachorrentos, depois de um dia de exaustivo trabalho.
Entrávamos em casa, no inverno e sentávamo-nos aconchegados, à lareira, vendo o fogo crepitar, lavando os pés dos mais velhos, enquanto se rezava o terço e aguardávamos a magra ceia. Depois, íamos dormir, embalados pelo vento que silvava nos pinhais. E o vento soprava, cantava, rangia, uivava, embora lá fora parecesse apenas um bailarino dançando uma canção de amor.
É esse vento que ainda trago nos ouvidos, e, por vezes, não me deixa adormecer!
Naqueles dias, havia o pomar da D. Vitória, onde comíamos, à vontade, os frutos colhidos das árvores, ou recém caídos, enquanto enchíamos generosos baldes dos frutos mais antigos, para alimentar os porcos e os que ficavam no campo, viravam húmus e promessa de melhores frutos do próximo ano.
Havia uma cerejeira de enormes, de suculentas cerejas brancas, difíceis de alcançar, debruçadas sobre o abismo de três enormes tanques de água fria, que brotava da mina e onde, em certos dias da semana, as lavadeiras, batiam as roupas na pedra, ensaboavam de novo, colocavam um pouco sobre um manto de erva fresca, para corar e lavavam de novo, enxaguavam e punham para secar ao som de belas risadas e cantigas, e as cerejas só podendo ser colhidas por mãos experientes de adultos, dado o perigo de tal colheita. E, por falar em cerejas, havia ainda uma enorme cerejeira, na casa da tia Clemência, na Mota, cujos ramos se debruçavam sobre a varanda, carregadinhos de enormes cerejas vermelhas, que nos permitiam colhê-las sem esforço e deliciar-nos com aqueles frutos vermelhos que nos deixavam a boca e as mãos vermelhas, durante horas.
Naqueles dias, havia uma escola, do outro lado da rua estreita, crianças brincando e gritando no recreio e a menina, à janela, do outro da rua, embalada pela lengalenga de tabuadas cantadas, sonhava com o dia de frequentar a escola, abraçar aquele universo de letras indecifráveis, escondendo mistérios, pensando, quem sabe um dia, ser professora, e poder desvendar esses mistérios, aos seus alunos. Enquanto esse tempo não chegava, a menina corria, sozinha, no pátio deserto, ao fim do dia, ou da semana, durante as férias escolares, dominando aquele espaço, tornando-se a dona do pátio. A escola era construída sobre grossa colunas de concreto, chão de brita, formando, assim, uma espécie de cave, contornada de paredes com janelas rasgadas por onde passavam apenas gatos (daí o nome “gateiras”) e crianças atrevidas, em busca de aventuras ou de uma bola perdida... Entrar pelas gateiras, mais do que atrevimento, era um ato de coragem, de afrontamento do desconhecido, pois não se sabia se nos defrontaríamos com algum gato morto ou se sairíamos de pés sangrando, cortados por pedaços de vidro disfarçado no meio das pedras e da luz cada vez mais fraca, à medida que nos afastávamos das gateiras, na travessia de um lado ao outro daquele porão em que, apesar da pouca altura, mal podíamos ficar em pé. Depois viriam os dias de frequentar a escola e desmitificar aquele espaço sagrado.
Naqueles dias, havia a saudade de um pai que morava longe, e promessas de áfricas acenando. Era o tempo da inocência e das peraltices, às vezes, duramente castigadas por uma tareia de cinto de couro, ou de cordas dobradas, castigo, muitas vezes desproporcional ao delito cometido, mas nem por isso, os pais se sentiam ameaçados de possíveis denúncias e riscos de prisão por terem tentando alinhar a criança aos bons princípios da educação, ainda que os métodos fossem pouco ortodoxos, e muito exagerados. 
Naqueles dias, nada, nem ninguém, nos impedia de correr pelos campos, pelos matos, ou de adormecer de cansaço numa cama fofa de fetos, de deixar o corpo entregue aos sentidos, respirando o aroma da relva recém cortada, o cheiro de terra molhada, de sentir o tronco enrugado dos pinheiros, na tentativa de uma escalada. De sentir o perfume do eucalipto misturado ao odor do pão quente saindo do forno. Era um cheiro a capim, a mata verde, era a cozinha cheia de fumaça do pinho verde queimando na lareira, fazendo lacrimejar os olhos de quem penetrava nesse ambiente de névoa densa, adivinhando a direção do fogo aconchegante, crepitando na lareira, enquanto a nortada de inverno soprava, gélida, lá fora.
Naqueles dias, subíamos às árvores, onde permanecíamos, por horas, sentindo-nos pássaros, e perguntávamos “ao cuco da beira-mar, quantos anos ele nos dava para nos casarmos”, e o cuco (uma outra criança), respondia com tantos “cu-cu” (canto do cuco), obrigando-nos a contar até cem, duzentos ou, se mais benévola ou preguiçosa, até vinte ou trinta. Colhíamos os frutos das árvores, diferentes a cada estação. E, se as cerejas nos deixavam de boca vermelha os nogões marcavam nossas mãos de um amarelo que, por mais que as esfregássemos e lavássemos, deixava as mãos amarelas, durante dias.  Não tínhamos pressa de crescer, nem de casar, nem de nos retorcermos, precocemente, em danças sensuais.
Naqueles dias, não sabíamos a cotação do dólar (nem que ele existia), qual a melhor aplicação bancária, apenas ouvíamos falar da fome e dos horrores da guerra (a Segunda Guerra Mundial), marcas ainda muito vivas na lembrança das pessoas. Quanto a nós, nada sentíamos perder, já que nada tínhamos, e o dinheiro era de pouca serventia, nada havia para se comprar... O sol, a chuva, o vento, eram inteiramente nossos e vivíamos ao sabor das estações, e os pés descalços na terra representavam a liberdade plena e o Inverno guardava segredos e preparava-nos caminhos insondados e insondáveis! Então, a nortada soprou forte e a avozinha ficou, hirta, pálida, de olhos fechados, e a mãe quis que a menina se despedisse com um beijo, daquela senhora, deitada, muda para sempre, de sorriso apagado, de olhos fechados e a menina resistia àquele beijo, pois aquela mulher, que não sorria mais, não podia ser a avozinha. Era apenas um corpo vazio. Onde o sorriso, onde o brilho no olhar da avozinha?
Na sala ao lado, as tias e as primas choravam um rio de lágrimas, descendo silencioso sobre as faces, ou soltavam largos soluços ruidosos, e a menina, de olhos arregalados, olhava tudo aquilo, como se olhasse o impossível. Ainda ontem a avozinha a pegara no colo, acariciara, e hoje, sem prenúncio de maleita, apenas pelo capricho de um boi assustado, a avozinha estava ali, lívida, estendida no esquife, de mãos cruzadas sobre o peito e um grito mudo, no peito da menina, pedia à avozinha que se levantasse, que a pegasse mais uma vez no colo, mas nada, nada a fez levantar-se. Nem a chegada do filho mais novo que vivia afastado dali, mas muito mais perto do que o mais velho, morando lá, do outro lado do mundo... Chegou o padre, rezou as orações, e uma junta de bois puxou o carro com o esquife, subiu a rua e a menina, espreitando pela janela da cozinha, viu o préstito desaparecer na curva. Os adultos voltaram, as noras fizeram a partilha dos parcos haveres, mas da avozinha, apenas o imenso vazio no peito da menina, e a eterna lembrança daquele carro com o caixão desaparecendo na curva da estada, aquela sala lotada de gente conhecida, desconhecida e do primo, elegante no seu calção curto e casaco e boné, que mais parecia um pequeno lorde, recortado de uma ilustração de romance inglês. Essas, as imagens gravadas, para sempre, no olhar da menina.
Depois que a avozinha se foi, os dias não foram mais os mesmos. Havia o vazio, um imenso buraco no peito da menina, que a ausência do pai, e dos dois irmãos mais velhos, desbravando áfricas desconhecidas, abrira e se ampliava agora, naquele gosto amargo de vazio, de ausência... eram muitas ausências para tão pouca vida! E esse gosto meio amargo de ausência, nunca mais deixou de se fazer presente, no peito da menina.
Quando a avozinha ainda estava no meio de nós, os dois irmãos mais velhos da menina, partiram para África, onde o pai já se encontrava e essa era a primeira vez que a menina se deparava com a angústia da despedida. Quando o pai partira, a menina era tão pequenina que não tinha a menor ideia como acontecera essa ausência. Só pôde constatar a falta, à media em que ia aprendendo a saber a vida.
Agora o destino roubava-lhe a avó querida, e os outros irmãos partiram para o seminário e as irmãs para o colégio interno e a menina ficou só. Não se sentiu abandonada porque tinha a escola e as primas de Gião, com quem sempre estava, desde que se conhecia por gente, pois não lembrava dos percursos anteriores, nem dos passos que a trouxeram ali. Era como se, desde sempre, pertencesse àquele lugar, embora soubesse ter nascido na Corga, na casa grande, onde todos os irmãos nasceram, mas em condições bem mais precárias. A menina nascera frágil, uma ferida se abre no rosto, corre-se ao médico que diz:
− Dê-se-lhe penicilina! Se a saliva começar a sair ela morre. Desespero, a penicilina teria que ser buscada no Porto e, naquele tempo (1946), os vinte e quatro quilômetros de distância, representavam uma lonjura imensa, pela falta de transportes e de velocidade dos mesmos. Então, o Doutor de Canedo, que me remete ao João Semana de “As Pupilas do Senhor Reitor” de Júlio Dinis, cuidou com carinho e cuidado, daquela menina frágil, sem penicilina, basicamente com pó de sulfas (hoje me informaram que está proibida a venda de sulfas, não entendi a serviço de que interesses, pois, se esse pó milagroso salvou a vida da menina, cicatrizando-lhe a ferida, e muitas outras, o que faz dele um remédio nefasto?),  e a morte foi embora, sem deixar rastros... Será por isso que ela veio buscar, cedo demais, a avozinha? E o Doutor de Canedo, (nunca ninguém lhe chamou pelo nome próprio), continuou por muito tempo ainda, ajudando a menina a se manter forte e a crescer. Foi seu pediatra, dermatologista, dentista... Era um tempo em que os médicos sabiam de tudo um pouco, olhavam nos olhos de seus doentes, e não eram meros especialistas. Os pacientes eram inteiros, e não precisavam de médicos tão especializados que sabem tudo, ou quase tudo, de quase nada.
 Agora, que ficara sozinha, a menina tinha a escola, ao lado da casa, um imenso salão, de carteiras duplas, com um buraco no meio onde se enfiava o tinteiro de cerâmica branca, e as canetas, ou melhor, as penas, repousavam, quando não estavam em uso, em ranhuras apropriadas. Tudo era fascinante! A professora, orquestrava, como exímio maestro, uma classe composta, de uns trinta ou quarenta alunos, da primeira à quarta série, dispostos em fileiras, cada série se ocupando de suas tarefas, colocadas cuidadosamente em cada quarto de lousa, dividida por um traço vertical de giz branco, e, enquanto uns faziam o ditado, outros se entretinham com uma série de contas ou com a cópia de um texto ou da tabuada, que, dentro em pouco, teria de ser dita de cor, sem olhar o caderno. E assim, socializávamos o conhecimento... Nada sabíamos sobre Dewey, Montessori, Piaget, Escola Nova ou Tradicional, éramos cobrados por nossos erros e desatenções com palavras mais ou menos duras e, se a coisa era grave, lá vinha em nossa direção a “santa luzia” de cinco olhinhos (palmatória) para nos abrir os olhos e a mente, e nos tornar mais atentos, espertos e educados, e nenhum adulto era punido por nos punir tão severamente. Doíam as mãos, às vezes, inchavam, e nem nos queixávamos em casa para não redobrar o castigo. Até onde sei, poucos ficaram traumatizados para o resto da vida... Eram dias difíceis, mas sobrevivemos a eles.
Os irmãos que estavam no seminário e as irmãs no colégio interno, para meninas, voltavam para casa nas férias do Natal, da Páscoa e do Verão e voltavam as noites de luar, os sobrinhos e os amigos da D. Joaquina, para passar férias na aldeia, os cães latindo ao longe, as histórias de ladrões e de ciganos, os medos, o afoitamento de ir cada dia mais longe, mata adentro, e aquele frio no estômago diante da possibilidade de não saber voltar. Havia cantos e risos, as primeiras fotos que o mano tinha aprendido a fazer e que registavam cenas da vida simples daqueles dias que se perderam na bruma do tempo...
 Sim, foi aí que a menina decidiu (e cumpriu) o vaticínio:
− Um dia serei professora!
E, enquanto o destino, ou a determinação, não se cumpriam, a menina enchia os olhos de verde, e os pulmões de ar puro, que guardaria para sempre, dentro de si, como um punhado imaginário de terra, como se fosse de Tara, da Scarlett  O’Hara, de “E o Vento Levou”, dum tempo em que nem cinema sabia que existia. Essa terra, estava entranhada na mente, no coração, nos olhos da menina e, quando longe, chegava até ela, no assobio do vento.