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Melhor Idade?

Ninguém disse ao meu coração Que o tempo passa, rasga e desgasta Que tem uma idade E outra idade E uma terceira idade Que chega sorrat...

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fiapos de tempo


             "Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
               Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo".
                                                                                   Álvaro de Campos

Janeiro de 1963.
Mais uma vez, Cecília mudava o curso da vida. Coimbra era, naquele tempo, uma cidade pacata de tricanas e capas negras. Tudo era novidade. O apartamento pequeno, mas aconchegante: o comboio que, por dias, não a deixava dormir; as colegas; os jogos da Académica; o colégio.  
O Natal passou despercebido, na azáfama da mudança. Também naqueles tempos não havia dinheiro para festas. Todos os recursos foram-se no aluguer, na mensalidade do colégio, cadernos, livros e na austera mobília.
O colégio, situado no alto do morro, sobranceiro ao rio, todo branco, imponente, era “o palácio das janelas verdes“, como lhe chamavam as alunas.  Para lá chegar, um tormento. Um tormento, qualquer que fosse o caminho: pela ladeira íngreme ou pela longa escadaria que, vista debaixo, terminava no céu. Essa a sina de Cecília, duas vezes por dia, todos os dias, nos próximos anos.
Naquela manhã de inverno, vento forte, chuva, Cecília vai para as aulas. Abordado o colégio, olha para o alto e decide-se pela ladeira. Nesse instante interpela-a uma mulher, sacos de serapilheira a envolver-lhe o corpo, um à cintura, outro, improvisado capuz, a cobrir-lhe a cabeça, os ombros.
— Ajude-me, menina. Por Deus... ajude-me! — pediu-lhe a mulher.
— Venha comigo — lhe disse Cecília. E acolheu a mulher no pequeno guarda-chuva.
E logo uma rajada de vento revirou o abrigo.
Completamente encharcadas, chegaram à portaria do colégio. Cecília encaminhou a pobre mulher a uma religiosa e dirigiu-se à entrada lateral, procurou a casa de banho mais próxima e tentou secar o corpo, o cabelo e os sapatos, sem grande êxito, mantendo-se molhada até à hora do almoço, quando, finalmente, pôde trocar de roupa. Da mulher, nunca mais ouviu falar, mas a lembrança do seu vulto, da sua fragilidade, nunca se desvaneceu e imortalizou-a, dois dias depois, numa redação. Um mesmo sentimento de abandono e pobreza, por vezes, envolvia a menina e não lhe deixava apagar a imagem. Cecília estudava naquele colégio, por que, segundo as normas, a transferência da escola particular para a pública só era permitida em mudança de ciclo.
D. Amália, nome fictício, como convém à história, era a professora de Português. Uma mulher grande e austera, mas ao mesmo tempo doce. A primeira tarefa que pedira, naquele trimestre, era uma redação — Um Retrato —, que as alunas deveriam levar pronta, na próxima aula. Tema difícil de desenvolver, sobretudo para um grupo de adolescentes que mal sabia falar de si, quanto mais, ter o olhar aguçado para retratar, física e psiquicamente, alguém do seu conhecimento, com verdade e coerência. Cecília, embora tivesse alguma habilidade com as palavras, tinha passado o fim de semana inteiro, procurando uma inspiração para o retrato e... nada! Subiu angustiada a escadaria do colégio, cumprimentou as colegas correndo e pediu que a deixassem em silêncio, por uns breves instantes para fazer a redação. Aflita, viu a professora entrar, fazer a chamada e dirigir-se às carteiras para verificar quem tinha feito a redação.
— Desculpe, estou acabando de passar a limpo —, disse à professora, meio envergonhada.
Ela nem suspeitava que a professora tinha por hábito chamar algumas alunas para lerem suas redações, em voz alta, diante da turma, seguindo-se os comentários, nem sempre elogiosos, da professora. Ainda trêmula, pôs-se de pé quando a professora chamou seu nome. A voz foi clareando à medida em que avançava na leitura. Quando terminou, mal pôde acreditar, que a professora questionasse se tivera ajuda para a redação. Até as colegas quase se manifestaram para esclarecer que ela a tinha feito, em cinco minutos, antes da professora chegar.
O que Cecília acabava de ler, era o retrato impreciso, de uma mulher maltrapilha, subindo a seu lado a ladeira do colégio, numa expressão de fome e de miséria, como se de um esboço impressionista se tratasse. Cumprira a tarefa. A professora gostara, mas chamá-la-ia muitas outras vezes para ler as redações. No início, para provar que eram de sua autoria, depois, como exemplo de uma boa escrita. Assim se estabeleceu uma feliz relação entre a exigente professora de Português e a menina que gostava de escrever, de ler, de ouvir histórias. Talvez tenha sido aquele o momento em que Cecília decidira não ser a advogada que lhe tinham vaticinado, mas a professora que acolheria, numa longa jornada, milhares de alunos, ora angustiados pela ânsia do saber, ora felizes pela descoberta do sonho. Essa profissão permitir-lhe-ia praticar seu senso de retidão e de justiça. E à pobre mulher vestida de miséria, de quem nunca  soube nem do nome, nem que caminhos terá percorrido, passou a dedicar uma gratidão silenciosa.
De todas as imagens que lhe povoam o imaginário, poucas permaneceram tão fortes, e por tanto tempo, na memória, como a dessa sombra fugidia que num dia de tempestade, abrigou, desabrigando, sob o frágil guarda-chuva. Em nenhum outro inverno o Mondego avançou tanto sobre os laranjais, deixando um retrato de desolação, com as copas das árvores tocando as águas revoltas, enquanto as laranjas eram, apenas, minúsculos pontos dourados, dançando no balanço do rio que se fizera mar.
Desses farrapos de tempo, também se mantém viva, na memória de Cecília, a imagem da pequena Isabel, subindo e caindo a escadaria íngreme. Naquele dia a criança, que não teria sequer, completado cinco anos, rejeitou com violência a ajuda de Cecília que ficou perplexa diante de tal reação. Apesar da diferença de idades, eram boas amigas. Muitas vezes, já tinham subido juntas a mesma escada rindo e brincando, mas, nos últimos dias, Isabelinha perdia o equilíbrio, com uma frequência cada vez maior, e uma amarga revolta crescia em ritmo acelerado.
A notícia de que a menina contraíra Poliomielite — a famigerada paralisia infantil — deixou Cecília chocada e revoltada. Como poderia uma criança tão linda, que adorava subir, correndo a escadaria do colégio, estar condenada a uma cadeira de rodas? Entendeu a revolta da criança, que agora era a sua revolta. Se existe um Deus de bondade e justiça, como sempre escutava nos sermões dominicais, como poderia Ele consentir numa desgraça assim? Como se rouba a uma criança o sagrado direito de correr, subir às árvores, chapinhar os pés na lama. Em poucos dias Isabel abandonou o colégio e as notícias foram rareando. Nunca mais soube o que aconteceu com a criança, se conseguiu, ou não, superar a revolta. Para Cecília esse é mais um dos elos perdidos da cadeia da vida.
E foi, também, às margens do Mondego, que viu crescer as amizades do grupo “Os seis magníficos” que, “na hora da despedida”, para marcarem os bons momentos vividos e, com ou sem habilidade para versejar, deixaram, cada um a seu modo, impresso, nuns versinhos de pé quebrado, o relato dos dias de convívio, para que, ao lê-los mais tarde, pudessem recordar e reviver as mesmas emoções.

Mas essa é uma outra história!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Sobre o Amor

           Escrever é um exercício de reflexão sobre a vida, enquanto se pode amar e manter o brilho no olhar!

 Sobre o Amor
                                Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequências,
                                Sempre, sempre, sempre,
                                Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
                                Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Álvaro de Campos
Acordo de manhã, coloco o café na chávena (ou na xícara, se preferirem), e penso em ti. Na verdade, penso em ti ao longo do dia e quando a noite se faz comprida e avança e pelo dia seguinte. Penso em ti e em mim, assim, separadamente, pois não há como pensar em nós. Há muito que os nossos caminhos se (des)cruzaram e que nos perdemos nos descaminhos da vida, com continentes e mares de permeio. É muito longe. Melhor, são muitos os longes de nossas vidas.
O bom do amor é que ele não conhece fronteiras, nem precisa de reciprocidade para acontecer, como acreditam alguns. O Amor é Amor! Que importa se o outro não corresponde? Amar é “ação” individual, verbo transitivo que demanda objeto, voz passiva, que transforma o objeto em sujeito passivo, dum agente que era sujeito. Por isso, o João que amava Maria, que amava Carlos, que não amava ninguém (passe a paráfrase mal parafraseada), é alguém que ama alguém, que ama um outro alguém, sem que se cumpra o caminho da mutualidade. Se, por descuido do destino ela acontece, é a felicidade suprema!
O amor é meu e, enquanto sujeito, dedico-o a quem eu quiser, sem que isso torne o outro, o meu objeto de pertença. Ele é, apenas, um sujeito passivo, a quem dedico o meu amor, daí poder dizer que o outro é amado por mim. Quando digo que te amo, sou infinitamente verdadeira e o meu amor é a verdade mais deliciosa da vida!
Sorris quando te declaro e entrego, desprotegida e frágil, o meu amor, por não conseguires acreditar que haja, nessa declaração, a verdade da essência do amor. Amo-te, porque te amo e não tenho, nem espero, a contrapartida desse amor (seria bom!). Se correspondesses, onde iria, amanhã, buscar o brilho no espanto no teu olhar? Apagar-se-ia a chama? Amo-te e não te quero! Ter-te, seria perder-te, pois a posse mata o amor. Alguns acreditam que ciúme é amor, mas não é. O ciúme vem da pertença. Quando se diz : “Ele é meu! Ela é minha!”, sobrepõe-se a posse e mata-se a liberdade de amar e ser amado, sem cobrança. É verdade que o amor quer exclusividade e aí reside seu paradoxo. Quando te digo que te amo, gritando baixinho, olhos nos olhos, dou-te um amor total que, sendo teu, me deixa (e te deixa) livre para amar, quem mais o meu infinito amor quiser abrigar no peito.
Tu ainda não sabes, mas desconfias, já descobriste ­– e te incomoda – que também me amas, para lá das palavras. Tu sabes, e te assustas, com a urgência desse amor tardio que não pede o toque, nem a cama, onde tudo se resolve e morre. Eu quero o amor perpétuo (muito além da vida), como a gota de mar que caiu dos teus olhos e inundou minha alma! 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Dor de uma Saudade

DESPEDIDA

Eram quatro meninas que passavam os dias brincado entre arvoredos e flores silvestres. Colhiam amoras nos silvados e transformavam em guirlandas os malmequeres colhidos a esmo. As brincadeiras eram inocentes mesmo quando se fingiam de mortas, prendendo a respiração, numa capacidade histriônica de dar inveja aos melhores atores. Uma delas fazia isso à perfeição e, certa vez, Nanda, a mais nova do grupo, chorava de verdade a amiga morta. 
As meninas cresceram, separaram-se, pela força das circunstâncias, reuniram-se tempos depois, até que um dia, se separarem por longo, muito longo tempo. Seguiram caminhos diferentes e deixaram para trás a promessa de serem, mutuamente, madrinhas dos respectivos filhos.
Nanda era, como referido, a mais nova das três irmãs e a prima andarilha, a mais velha das quatro. Apenas um ano de diferença de idade entre cada uma, o que nada significava em relação às brincadeiras de infância nem aos segredos da puberdade.
Quando crianças e até mais tarde, adolescentes, dividiam a imensa cama de casal de vastas medidas e as conversas e risos prolongavam-se até o sono as vencer e adormecerem, duas para os pés, e duas para a cabeceira da cama. Tudo era alegria e festa e, por mais acesas que tivessem sido as discussões diurnas, tudo terminava bem e dormiam como anjos amigos, sorridentes.
Um dia a prima distante chegou de longe e foi surpreendida pela triste notícia de que Nanda estava gravemente doente. Houve uma certa resistência dos familiares em consentirem no encontro, mas acabaram cedendo, diante de sua insistência. Entrou no quarto da enferma e nada, agora, fazia lembrar a menina de riso fácil. Pálida, a pele baça cobrindo-lhe os ossos era tudo o que restava de um corpo outrora rosado.
Como somos pobres de palavras, diante da inevitável proximidade da morte! Sem saber o que fazer, debruçou-se sobre aquela sombra de vida e murmurou palavras de ânimo, que lhe pareceram fúteis diante da constatação da morte iminente. Tinha insistido em vê-la, queria segurar-lhe a mão mais uma vez e, nesse gesto insuflar vida, como se fosse dotada de tais poderes ou, quem sabe, adivinhava o medo (que poderia vir a sentir) de não suportar o peso da culpa, por não estar ao lado de quem, outrora, lhe tinha proporcionado momentos de vida, inesquecíveis.
Naquele momento, com a mão de Nanda entre as suas, mal conseguiu balbuciar: “Força, minha Querida, eu te amo!”
Ao mesmo tempo que queria animar a prima e chamá-la para a vida, percebia o quase ridículo de suas palavras. Força para quê? Para percorrer o impossível caminho de volta ou para enfrentar o desconhecido da morte? Que reflexo têm as palavras que dizemos a alguém em tais circunstâncias? A quem dão paz? Aos que partem ou aos que ficam, perplexos diante de tão grande e misterioso abismo?
Uma semana depois chegou a notícia do passamento de Nanda e em meio à dor da ausência, à saudade que jamais se apagará, uma estranha paz dizia à prima que aquele derradeiro momento valera a pena.
Nanda, onde quer que o infinito te guarde, sempre estaremos contigo!

domingo, 24 de julho de 2016

Sobre Príncipes e Sapos



De pé, frente à grande janela do ginásio, que dava para o quintal do colégio, ao lado da lavandaria, a colegial contemplava, de olhar perdido, a imensa cortina de lençóis brancos, secando ao sol fraco, dos curtos dias de inverno. Enquanto os lençóis esvoaçavam levemente ao sabor de uma brisa fresca e suave, ela pensava na vida que levava dentro daquele internato, longe da família, e em como, os gritos e risos que lhe chegavam aos ouvidos, das colegas que, despreocupadas, brincavam no ginásio, correndo, rindo, jogando Badminton, ou deslizando em patins de quatro rodas, pareciam sem sentido. Ali, os domingos só se distinguiam dos outros dias da semana por não haver aulas, mas o ritmo era o mesmo: lento e monótono. Portanto, nada melhor a se fazer do que projetar o futuro incerto, naquelas telas gigantescas, abrir os olhos e sonhar...
Como não há limite para o sonho, os olhos da menina se viam percorrendo os campos verdejantes da infância, que há muito havia deixado para trás, e onde colhia agora flores impossíveis, com que tecia guirlandas imaginárias enfeitando os cabelos, na espera de um príncipe perfeito, que viria de algum lugar, montado num cavalo branco, para resgatá-la da frialdade daquelas paredes de colégio, por onde a vida se escoava, num vazio sem fim.
Naqueles dias, acordar, levantar, rezar, comer, estudar, deitar e acordar de novo, era uma ciranda que não parava nunca. Apenas as férias quebravam essa rotina, que logo-logo era retomada, ano após ano. Era tão lento o escoar dos dias, que aquelas meninas tinham a sensação de que um dia, acordariam velhas, dentro do seu uniforme azul marinho, de gola branca de renda guipure[1], mas seria tarde demais, para a chegada do almejado príncipe de farto cabelo de oiro e olhos de um azul cristalino como o de um céu ensolarado, que as resgataria daquele lugar onde só os desejos cresciam.

***
Um dia, como tem que ser, o colégio ficou para trás, perdido na poeira do tempo. As meninas acabaram de crescer, já fora dos muros do colégio, longe das telas de lençóis brancos balançando ao vento, distorcendo as imagens do futuro, que teimava em não se mostrar claro. Cada uma seguiu seu caminho, perderam-se nas infindas e densas brumas de D. Sebastião e jamais se encontraram. Dos Príncipes, talvez uma, ou outra, tenha vislumbrado o manto, mas muitas, encontraram encantadores sapos que as iludiram, sapos carinhosos, sapos amigos, sapos tinhosos a quem, nem o mais ardente dos beijos conseguiu transformar em príncipes.
Das princesas, a que mais sonhava, correu mundos, viveu histórias e, um dia, num lugar muito distante, sentada à mesa de um restaurante, pareceu-lhe reconhecer, naquele par de olhos azuis que cruzou o seu olhar, o encantado príncipe. Era um cavaleiro andante, que perdera seu cavalo em batalhas sangrentas, de que saíra ileso. Perderam-se, reencontraram-se algum tempo depois, como se a mão do destino, sempre caprichoso, quisesse dizer-lhes que deveriam selar o encontro. Não sabendo como resistir ao destino, o cavaleiro andante, sossegou de suas andanças e pediu a princesa em casamento. Seria o sonho se realizando? Seria ele o príncipe? Seria o “felizes para sempre”?

***
O que se sabe da história é que um dia, passado um bom tempo, a princesa, depois de um esforço imenso para arrancar o príncipe adormecido de dentro do cavaleiro andante, tentou o último beijo e viu o sapo, finalmente, pular para o brejo!




[1] Guipure = Palavra francesa traduzida como guipir, gripir ou gripier em português, do Brasil.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A Vida em Pedaços Repartida - 2

À Sombra do  Cajueiro

Sentada debaixo do cajueiro, numa velha cadeira de lona, Maria Júlia olhava em redor e uma suave brisa trazia-lhe lembranças de um passado longínquo. Era um passeio no tempo, que aquele estado de modorra lhe oferecia. O dia estava quente como convém a um fim de tarde africano, quando o sol baixa no horizonte tingindo de tons alaranjados o céu azul.
A brisa trazia-lhe memórias não vividas, de um soar de tambores, enquanto o negro Josias gritava, no momento em que era açoitado por algum Sipaio[1] de plantão. Qual seria o novo desacato de Josias? Uma boa dose de indolência ou uma resposta insolente a seu senhor? Por mais que tentasse, Maria Júlia não conseguira nunca entender com que direito um ser humano se acha dono de outro e pode espancá-lo a seu bel prazer. Tratou de afastar, para bem longe, reminiscências de um passado que não mais lhe pertencia, mas o som dos tambores não deixava de ecoar em seus ouvidos.
De regresso ao presente, olhou em redor e seguiu, com o olhar, um caju maduro que despencou do ramo mais alto do cajueiro e que, só por milagre, não a atingiu em cheio. A brisa fresca do entardecer trouxe-lhe novamente imagens do passado, como as dos dias em que, debaixo daquele mesmo cajueiro, era obrigada a segurar, pelas patas traseiras, o pobre coelho acabado de morrer com uma pancada seca atrás das orelhas, para que o pai o pudesse esfolar.  E, apesar da pena que sentia do pobre bichinho, aprendeu rapidamente a saboreá-lo, depois de cozinhado. Naquele tempo, fazia parte das suas tarefas diárias alimentar os coelhos e galinhas e outros pequenos serviços de ajuda doméstica, além da frequência às aulas e de manter em dia as lições de casa. O resto do tempo era correr pelo quintal e subir às árvores, procurando sempre o galho mais alto, mas firme.
Enquanto estes e outros pensamentos corriam soltos na mente de Maria Júlia, como se de um filme se tratasse, escutou ao longe um sonoro cantar de galo e sentiu o alvoroço de uma galinha que esvoaçava ali por perto, perseguindo algum inseto inoportuno, e bicando os frutos que jaziam no chão.
Não havia, praticamente, fotos desse tempo e dessa casa, mas guardara para sempre na memória a enorme varanda que ladeava os quartos amplos, ao fundo do corredor, e que a ligava à sala de jantar. Esta, por sua vez, dava para o pátio com uma breve escada que levava ao quintal onde, além do enorme cajueiro à sombra do qual, em imaginação, se sentava, havia outras árvores de fruto, como goiabeiras e mangueiras e uma bananeira mais adiante. Era um enorme terreno de esquina para duas ruas identificadas por um número em lugar de nome.
Esse divagar, entre sonho e realidade levou Júlia a uma lembrança bem distante, mas muito presente ainda  na sua memória. Havia uma festa na cidade vizinha e tinham sido anunciados fogos de artifício para aquela noite. A família havia-se preparado para ir assistir quando uma violenta discussão entre o casal pôs fim ao passeio. Diante da frustração de Júlia, que não tinha ainda completado dez anos, o pai pegou a bicicleta, colocou uma almofada no quadro e pedalou na escuridão por um tempo que, a Júlia, parecera infinito, mas que valera muito a pena diante do espetáculo de luz e cor que se desenhava no céu a cada instante. Foi o êxtase! Nunca tinha visto, nem veria jamais, uma profusão de luz e de cor tão intensa e deslumbrante! A vida proporcionou-lhe muitas oportunidades de ver fogos de artificio, os mais belos do mundo, como dizem ser os das festas de Santa Luzia, em Viana do Castelo, ou os da passagem do ano na praia de Copacabana no Rio de Janeiro, mas nenhum deles conseguiu superar a imagem que guardava, daquela noite escura como breu em que andou por dentro da noite, até chegar ao local do deslumbrante espetáculo. Essa, é mais uma das memórias sem registro fotográfico, que guardará para sempre, impressa na mente, imagem que poderá acessar, sempre que quiser, e será bem sua, intransmissível a quem quer que seja. Em vão olha ainda os céus em busca daquela lágrima de fogo, iluminando a silhueta daquele pai que acabava de reencontrar depois de longa ausência, e ainda era pouco mais do que um desconhecido íntimo de quem sondava os mistérios.
Tantos anos volvidos e, sempre que fecha os olhos e permite ao passado fazer incursões no presente, aquela noite mágica estrala fogos coloridos em sua mente!
Um arrepio provocado pelo vento que de repente começara a soprar forte lembra-lhe que deve recolher-se pois a noite chegou e com ela relâmpagos e trovões vindos dos quatro pontos cardeais, iluminam o céu e anunciam a tempestade tropical, assustadora e bela.
Os ramos das árvores fustigados pelo vento forte, dançam sem parar e num passe de mágica, o céu se abre em violentas bátegas de água que lavam e refrescam o ar. É uma chuva quente que inunda as ruas, sobretudo na maré alta, arrasta o que encontra pela frente, enquanto no alto, raios e trovões parecem travar um duelo sem fim, mas pouco tempo depois, toda a violência se esvai e fica o ar lavado em volta e o calor abrasa a noite do verão africano.
Maria Júlia vê-se agora sentada na espreguiçadeira do convés do navio, lendo Guerra e Paz de Tolstoi quando se apercebe de um pequeno novelo de linha de crochê, escapado do colo da senhora sentada na espreguiçadeira ao lado, rolando em sua direção. Afasta o livro, debruça-se na cadeira para apanhar do chão o novelinho atrevido e, com um sorriso, entrega-o à dona. Começava, naquele gesto simples, um longo percurso de amizade, diluída agora numa longa ausência e distância. Era uma família pequena, composta pelo casal e um filho de idade muito próxima à de Maria Júlia. Trocaram-se olhares, apresentações e, logo em seguida, um convite do filho para um banho de piscina. Maria Júlia aceitou o repto e dispôs-se a ir colocar o fato de banho, como então se dizia e, enquanto se deslocava para o camarote, escutou a voz dele, em tom galhofeiro, dizer:
- Venha rápido! É só colocar o maiô, não o vestido de noiva! Todos riram e em alguns minutos ela retornou, pronta para o mergulho. Era apenas o segundo dia de viagem, dos quinze de duração total e ainda ninguém entrara na piscina, como se todos quisessem ver quem seria o primeiro a inaugurar o espaço. O “Príncipe Perfeito” era um dos melhores navios da frota mercante portuguesa da época, uma pequena cidade flutuante que contornava a costa africana, do Atlântico ao Índico, refazendo sempre a rota de Vasco da Gama, levando e trazendo passageiros de Portugal à Índia. Os dias corriam preguiçosos entre refeições, jogos, dança e banhos de sol ou de piscina, num escoar de horas até ao próximo porto, onde era quebrada a rotina.
O café, depois do almoço, era o pretexto ideal para um desfiar de anedotas e de risos, que às vezes chegavam às lágrimas, e aquele grupo parecia ser o mais divertido, por isso não faltava quem fosse chegando a cadeira para mais perto para poder participar daquele ritual diário de alegria. Algumas noites era projetado um filme, ao ar livre, no convés e os passageiros se reuniam para assistir.  Naquele dia, João Paulo chegou, de blazer azul marinho e, depois de assistirem a “Luzes da Ribalta” convidou Maria Júlia para darem um passeio pelo convés. Ela disse:
- Pareces um colegial, com esse blazer marinho!
- Estou-me sentindo um colegial que vai sair com a primeira namorada!
Ambos riram, desceram ao convés inferior e passearam, de mãos dadas, olhando a escuridão da noite, a luz prateada do luar refletida nas águas do Índico, enquanto a brisa marítima os envolvia numa carícia silenciosa, cheirando a maresia e a espuma branca das ondas se desfazia de encontro ao casco do navio. As estrelas, o luar e a noite, foram as testemunhas silenciosas de um grande amor que acabava de nascer, mas, desde então, condenado a não se efetivar, pelo capricho de um destino cruel. João Paulo, acabara de se desligar do exército e aproveitava a licença graciosa dos pais para passarem uns meses juntos, viajando, antes de iniciar a sua vida profissional civil. Havia firmado compromisso com uma moça que, segundo ele, saíra de uma desilusão amorosa e estavam começando um relacionamento. Nada disso impediu que entre Maria Júlia e João Paulo, se acendesse a chama da paixão e ambos correram o risco de vivê-la, mesmo suspeitando que não teria o final do “felizes para sempre”! Uma noite aconteceu o primeiro beijo, longamente consentido e desejado por ambos.
Um dia, aconteceu o inevitável. João Paulo saiu da vida de Maria Júlia, para sempre. Seria para sempre? Apesar da dor intensa da separação, das lágrimas inúteis de Maria Júlia, e de novas juras de amor a cada recaída, a cada encontro, desencontro e reencontro, um dia ela jurou para si mesma que não cairia mais nas promessas da voz aveludada e quente dele. Colocou um ponto final, recusou-se a procurá-lo. Às vezes ele reaparece-lhe em sonhos, deixando-lhe no ar o cheiro a maresia, a escuridão, a espuma branca e o luar prateando nas águas, mas quando abre os olhos devagar, só encontra o vazio, a solidão.
Maria Júlia fechou o livro que lhe descaíra no colo, levantou-se lentamente, entrou em casa, esboçou um sorriso que poderia, muito bem, ser de felicidade por, tanto tempo depois, poder recordar com saudade a que foi, a mais doce lembrança de sua vida. Entrou em casa e a chuva, pesada e quente lavou suas lembranças.
Celeste Baptista
Maio de 2016




[1] Sipaio – Sipai, Sipal ou Sipaio  (Pers. Sipãhi  pertencente à cavalaria), Soldado indígena da Índia , ao serviço dos ingleses (o mesmo designativo usado em Moçambique, ao serviço do governo português).

sábado, 14 de maio de 2016

O Bluebird


O Bluebird 

Setembro. Noite cálida de primavera africana! As aulas terminaram no horário de sempre e Carla saiu apressada para pegar o machimbombo[1] que, naquele dia, teimava em não chegar, talvez por capricho do motorista que se adiantou, ou do relógio que não marcara a hora certa.   Eram dez da noite e, àquela hora, não pegar o transporte no horário, significava ficar ali, por quase uma hora, esperando o próximo, num lugar deserto e sombrio. Era um absurdo que o transporte utilizado, quase com exclusividade, por alunos que saíam das escolas noturnas, passasse bem no horário em que elas fechavam, pensava Carla enquanto andava de um lado para o outro, como se a breve caminhada, diminuísse o tempo de espera. E continuou pensando que se o horário fosse uns 10 a 15 minutos depois, seria o suficiente para que ninguém fosse obrigado a esperar o próximo transporte, por tanto tempo. 
De um lado da rua ficava o enorme prédio do Liceu, que agora, de luzes apagadas e imensos corredores vazios, mais parecia um prédio fantasma. Do outro lado, um belo jardim não muito iluminado, a que as sombras movediças da noite emprestavam um ar assustador. Não era dada a medos, mas a hora e a ausência total de transeuntes, fazia com que qualquer movimento de folhas ou surgimento de pessoas ou de algum gato sorrateiro, ou cão vadio, se tornasse suspeito e pouco acolhedor. 
Era nesse ambiente sombreado por frondosas árvores em que Carla, completamente só, esperava o machimbombo para o Centro da cidade. Alguns carros passavam, abrandando a marcha ao notar a moça, sozinha, naquele lugar ermo. Sem prestar grande atenção aos carros e andando de um lado para o outro, abraçada aos livros, que segurava contra o peito, em atitude defensiva, pensava em quanto tempo ainda teria de ficar ali, enfrentando sozinha a escuridão. O caminhar impaciente, de um lado para o outro, para aliviar as pernas do desconforto de ficar de pé, parada, dava-lhe a ilusão de encurtar o tempo de espera, como se, dessa maneira, os ponteiros do relógio se adiantassem.
Apesar da miopia e da pouca luz circundante, pôde perceber que o Bluebird[2] que acabava de parar cerca de um metro à sua frente, já passara várias vezes por ali. Que desejaria o homem que caminhava lentamente, sorrindo, em sua direção, pensou. Ficou aliviada ao reconhecer o rapaz de estatura mediana: era um colega de classe, que assim se dirigiu a ela:
− Passei e vi-a sozinha, a esta hora, resolvi dar uma volta e passar de novo. Neste horário o machimbombo demora...
− É, respondeu Carla que, ainda permanecia em guarda, embora reconhecesse não haver perigo.
− Vai para onde? Quer uma boleia[3]?
As aulas haviam começado há poucos dias e, embora se sentassem lado a lado na aula de Latim, mal tinham trocado algumas palavras. Carla aceitou a boleia, gentilmente oferecida por Marcos, tanto pela urgência de sair daquele lugar ermo, quanto da de fugir da horda de pequenos insetos que volteavam em torno da lâmpada, e de alguns mosquitos atrevidos que não paravam de assediá-la.  A noite estava agradável! Entraram no carro e, em menos de dez minutos, chegaram à Baixa, pararam à porta do prédio onde ela morava, bem no centro da “cidade das acácias vermelhas”, como era conhecida Lourenço Marques. A conversa estendeu-se por mais uma hora e assim nascia uma grande amizade.
Criada entre o verde dos pinheiros, chegara a África ainda criança. Ausentara-se para estudos na Europa e, voltava agora, aos dezanove, para uma África que sabia amar, mas ainda não conhecia a extensão desse amor, nem tinha a ideia que deveria abandoná-la dez anos depois, na certeza de que estava presa nas malhas de um xicuembo[4] que habitava as águas do Umbelúzi[5] e que, de tanto beber dessas águas, se achava, definitivamente, presa à terra amada e perdida. Ironias do destino!
A África é um continente misterioso e envolvente, que se agarra à pele, invade os sentidos, com uma sensação de pertencimento, como se sempre ali se tivesse vivido. Marcos, beirando os trinta, cursara o Magistério e era já diretor de escola. Pretendia aproveitar a recente inauguração da Universidade, para tirar o curso superior de História, por isso tinham apenas algumas disciplinas em comum. Depois desse dia, passou a ser habitual ele levá-la a casa e conversarem, por um bom tempo, dentro do carro, na rua em frente ao prédio.  Os assuntos eram diversos e estabelecia-se um diálogo que corria solto e agradável e nenhum dos dois tinha pressa em dar-lhe um fim. A despeito de comentários maldosos, provocados pela estranheza de um homem e uma mulher ficarem ali, por tanto tempo, na rua quase deserta, sozinhos, dentro de um carro, o que acontecia, eram apenas diálogos intermináveis, alegres, inocentes, entre amigos. Era ousado para a época esse padrão de comportamento. Nesse tempo, homens e mulheres ensaiavam o diálogo da igualdade, mas as mulheres que se permitiam conversar mais demoradamente, em público, a sós com um homem, ainda eram olhadas de soslaio.
Nestes tempos, em que meninos e meninas “ficam” uns com os outros, num assanhamento de fim de mundo, torna-se difícil imaginar que durante anos, aquelas conversas foram apenas conversas e que, mesmo que uma vez ou outra, ele lhe tomasse as mãos entre as suas e comentasse: “Que mãos frias” ao que ela rindo completava o dito popular ”coração quente” enquanto as retirava daquele aconchego macio, nada de libidinoso havia nesse contato. Em tempos em que tudo começa nos “finalmentes”, soa estranho um encontro entre duas pessoas de sexos opostos, sem se deixarem incendiar por paixões fugazes, nem sequer trocar num beijo ardente.
Algumas vezes, quando saíam do Liceu e sabedores de que a conversa renderia, aproveitavam para dar uma volta maior, ao longo da marginal, sorvendo o cheiro a maresia e a carícia da brisa do Índico, pelas noites quentes do verão dos trópicos. A lua prateava as águas serenas onde antes, ao cair da tarde, o sol se banhara em espasmos de vermelho-alaranjado rajados de azul e branco e as damas da noite lançavam seu perfume adocicado no ar.
Naquele tempo, os homens ainda não se tinham tornado feras, não havia assaltos e, até os raros assaltantes, se os havia, não perambulavam pela cidade. Àquela hora estavam vestindo seus pijamas para uma sossegada noite de sono...
Comentários maldosos, insinuações, espanto, descrença, sempre existiram. Poucas são as pessoas que puderam viver uma história dessas. Amor sem sexo. Se todos aceitam que haja sexo, sem amor, por que não aceitar que possa haver amor sem sexo? Com o tempo os passeios se prolongaram numa cidade de sonho, à beira mar, com uma bela marginal, num clima tropical, de noites quentes, que convidavam ao passeio, noite a dentro, sentindo a brisa do mar acariciando os cabelos.
Para ela, ele era um amigo-irmão, um amigo-amigo, um amigo-amor. Talvez fosse um amor, terno, delicado, intenso e suave ao mesmo tempo. Um amor que atravessou os anos, os continentes, os desencontros e os reencontros, que permitia confidências, sem segredos nem mágoas, um amor de respeito como deve ser o verdadeiro amor.
Então, um dia o vento soprou forte, o vermelho das acácias virou sangue derramado. As flores dos jacarandás, de tristeza, atapetaram o chão de lilás, foram pisoteadas e os amigos se perderam. O mundo nunca mais foi o mesmo. A candura daqueles tempos se perdeu, salpicada de lágrimas de sangue.
Se as almas são energias que se reencontram, que os amigos tenham a chance de se rever um dia!
                               Celeste Duarte Batista
Maio de 2016




[1] Machimbombo = Ascensor mecânico, para ladeiras íngremes, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, de Fernando J. da Silva, 3ª ed., Livraria Simões Lopes (1955), mas, em Moçambique, o termo significa o mesmo que ônibus, autocarro.
[2] Carro marca Datsun, modelo bluebird, lançado por volta de 1960.
[3] Carona
[4] Xicuembo = deus da mitologia local.
[5] Umbelúzi  = Rio que abastece de água a cidade e, dizem, "quem bebe de sua água, não se afasta jamais dessa terra de mistérios e lendas".

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sobre o ato de Escrever



         Só gosto de escrever à mão e a tinta! Sim, detesto a escrita a lápis e tenho até uma teoria, para a não utilização do lápis na formação da escrita escolar.
        O lápis é um instrumento de insegurança, pois anda fatalmente atrelado à borracha, numa eterna dança de escreve-apaga. A borracha, na sua ânsia de perfeição, apaga a toda a hora o que o lápis, com tanto esforço, acaba de escrever. É isso que deixa inseguro o autor da escrita. Não conseguir a perfeição!
       A caneta desliza pelo papel em branco, segura de si, marca-o, não desfaz, não apaga (afinal a tinta é permanente!) e, quando se engana ou desiste do que acabou de dizer, risca e continua, mas o dito anteriormente, está lá sob o traço, lembrando ao escriba, aquilo que foi dito (querendo ou não). Lembrando-lhe que escolheu dizer, de um outro modo, melhorado, o pensamento que tinha chegado de forma tímida, imperfeita... À medida que escreve, risca, reescreve, reconta, firma sua opinião. 
        O pensamento a lápis (apagado, apagável) é um outro, quando se escreve de novo. Já o riscado e reescrito é o mesmo, reformulado, melhorado. É o que se sabe, mesmo sem ter a certeza de saber.
       É por isso que digo, e repito, escreva sempre a caneta de tinta permanente. Reveja, leia, releia, risque e rabisque. O que sobra é o texto, a ideia organizada e pronta a ser oferecida a um possível leitor que, mesmo sem concordar, se debruça e reflete, criticando, apoiando, sentindo (quem sabe) o prazer e ler!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Teu olhar


Presa na teia do enlevo,
do enleio, do relevo,
do teu olhar maroto
Tento e não consigo,
Romper a malha,
mas com raiva grito:
- Não posso resistir!

terça-feira, 8 de março de 2016

Dia Internacional da Mulher


      Há algum tempo pediram-me para fazer uma palestra intitulada "Mulher e Literatura", ou "A Literatura e a Mulher". Resolvi encarar o desafio, embora o tema fosse demasiado abrangente. Surgiram então as inevitáveis perguntas:
 - De que Literatura e de que mulher falar? Da literatura produzida por mulheres ou daquela que fala sobre as mulheres? De que ponto de vista? 
- Falar da mulher feminina e frágil, objeto de desejo e de produções literárias masculinas, ao longo do tempo?
- Falar da mulher forte, liberada que expõe pública e despudoradamente seus desejos, sujeito do seu fazer literário, que se denuda diante de um leitor despreparado para assistir à explosão de um vulcão adormecido por milênios?
- Preterir uma, em detrimento da outra, quando ambas coexistem no mesmo espaço e tempo?
       Foi para falar um pouco de todas elas, que reuni alguns textos e compus com eles o tema dessa palestra revisitada agora, aqui. Vamos à fala de então:
        
       Enquanto preparava o tema desta palestra, desenhou-se, na minha mente, um imenso desfile de mulheres, de todas as raças e credos que, ao longo da história da humanidade, desempenharam os mais variados papéis na complexa construção e conscientização do que é: ser humano! De Eva a Maria, de Cleópatra a Maria Antonieta, de Joana D'Arc a Anne Frank, de Marie Curie a Madre Teresa de Calcutá, de Marilyn Monroe à Princesa Diane, de Margaret Thatcher a Mata Hari e todas as mulheres que são ou foram um dia, mães, rainhas ou plebeias, operárias ou administradoras... é tão longo o cortejo que se torna impossível não esquecer alguém.
        Falar de qual mulher? Sobre qual deixar de falar?
    Falar das "mulheres somalis chicoteadas publicamente por usar sutiã" porque um grupo de extremistas islâmicos (homens) decreta que mulheres não podem, nem devem, usar sutiã ou devem usar burcas cobrindo todo o corpo para não serem alvo ou objeto de desejo de outros donos que não sejam "os seus senhores"?
     Devo falar das mulheres mortas, ou ameaçadas de morte por apedrejamento como Sakineh Mohammadi Ashtiani, ou das que, ainda em pleno século XXI têm seus órgãos genitais mutilados de forma ignóbil e desumana, por que os homens entendem que elas não têm direito ao prazer sexual?
        Devo falar da mulher terna e doce, musa inspiradora de poetas, ou da mulher que escreve a fogo seus textos e canções, da atriz, da pintora, da que canta suas agruras vergada ao peso da enxada, da vassoura ou da marreta de pedreiro, da santa, da pecadora da sedutora, da seduzida? Que mulher? com que voz?
        São tantas as mulheres, ou melhor, são tantos os olhares focados nas mulheres! Olhares de ternura, de compaixão, de afeto e de desprezo, de culpa e de perdão, de amor e de ódio, que, ainda que eu tivesse não uma, mas muitas horas para falar, não esgotaria o tema (os temas). Então, resolvi, peguei um texto aqui, outro ali, em tempos e espaços diversos, para poder mostrar como a Literatura, feita por homens ou mulheres, nos dá uma visão multifacetada.
            Século XXI! Vivemos o melhor dos tempos e, por estranho que pareça, um dos piores! Tempo de conforto, tempo da livre expressão de pensamento, apesar de ainda, em alguns lugares as pessoas serem presas e torturadas por expressarem suas opiniões, e muitos pagem um preço alto por suas escolhas!
            Durante muito tempo a Literatura falava da mulher na perspectiva masculina. O homem era o dono do fazer literário, o senhor da vida e da morte, o único que poia ditar normas de moral e de conduta e a mulher era, como dizia Freud, "um continente negro", um continente misterioso e desconhecido,que o homem tenta, desesperadamente, desvendar e dominar, mas que por isso mesmo o fascina, como se pode observar no trecho a seguir de uma carte de Freud a Martha Bernays:
           Quando chega uma carta tua todas as divagações acabam, e acordo para a vida. Todos os problemas estranhos deixam de ter importância, os misteriosos quadros de doenças se desvanecem, e acabam-se as teorias vazias "de acordo com o estado presente da ciência", como elas são chamadas. Então o mundo fica acolhedor, tão alegre, tão fácil de compreender.
             (Excerto da Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Outubro de 1883)
            
          Ou nas palavras do escritor moçambicano Mia Couto:

          A Demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta a água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é a nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.
        ("idades, cidades, divindades")

        A mais antiga referência literária à mulher remonta ao texto bíblico e à necessidade que o homem tem de uma companheiracom quem compartilhar seus momentos de solidão "não é bom que o homem esteja só" (pensa o criador), mas a criatura, pensa desde o começo, na mulher como objeto e propriedade sua:

      Então o homem exclamou: "Esta, sim, é osso de meus ossos e carne da minha carne!"
      Ela se chamará "mulher", porque foi tirada do homem! (Gênesis, I,2 e II, 3)
   
           Por isso o homem se acha, até hoje, o dono da mulher. (Esquecida assim a ideia de Deus de criar uma companheira).
              Ora, se são "carne da mesma carne", deveriam ter mais semelhanças do que diferenças, deveriam ser mais companheiros, semelhantes ao Amado e à Amada do Cântico dos Cânticos, que se olham com ternura e se deleitam um no ouro:

-  Como és bela, minha amada,  
   como és bela!...
   Teus olhos são pombas.
- Como és belo, meu amado,
   e que doçura!
  Nosso leito é todo relva.
- As vigas da nossa casa são de cedro,
   e seu teto de ciprestes.
- Sou um narciso de Saron,
   uma açucena dos vales.
- Como açucena entre espinhos
 é a minha amada entre as donzelas. 
     (Cântico dos Cânticos I, 15-17 e 2, 1-2)

         Entre dominar a mulher, como o Escudeiro da Farsa de Inês Pereira de Gil Vicente que afirma que "o homem sesudo traz a mulher sopeada", isto é, debaixo do pé (dominada), ou o reverenciá-la, como ser sublime e inalcançável, de quem o homem não é, senão um humilde servo, a Literatura está recheada de exemplos.
         Há momentos em que o homem se sente tão magoado com a morte prematura da amada, que não suporta a dor de viver sem ela e, deseja a própria morte para, quem sabe, encontrá-la no além, como podemos verificar neste belíssimo soneto de Camões dedicado a Dinamene.
       
        Alma minha gentil, que te partiste
        Tão cedo desta vida descontente,
        Repousa lá no Céu eternamente,
        E viva eu cá na terra sempre triste.

        Se lá no assento Etéreo,  onde subiste,
        Memória desta vida se consente,
        Não te esqueças do amor ardente,
        Que já nos olhos meus tão puo viste.

        E se vires, que pode merecer-te
        Alguma cousa a dor que me ficou
        Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

        Roga a Deus, que teus anos encurtou,
        Que tão cedo de cá me leve a ver-te
        Quão cedo de meus olhos te levou. 
                  (Sonetos)  

          E é ainda a mágoa, a dor da separação e da ausência que que se torna queixa e suspiro na voz de João Roiz de Castelo Branco:

             Senhora, partem tão tristes 
             Meus olhos por vós meu bem,
             Que nunca tão tristes vistes,
             Outros nenhuns por ninguém.

             Tão tristes, tão saudosos,
             Tão doentes da partida, 
             Tão cansados, tão chorosos,
             Da morte mais desejosos,
             Cem mil vezes que da vida; 

             Partem tão tristes os tristes, 
             Tão fora de esperar bem,
             Que nunca tão tristes vistes, 
             Outros nenhuns por ninguém.

Da mulher desejada, admirada e inatingível da poesia clássica, passamos à paixão arrebatadora dos românticos, uma mulher avassaladora, dominadora e sensual que arrasa e perturba o coração e a cabeça do poeta. Eva ou Maria, anjo ou demônio, misteriosa e desconhecida que deixa o poeta completamente à deriva que não sabe como identificar esse ser ora angelical ora demoníaco:
       
         Anjo és tu, que esse poder
         Jamais o teve mulher,
         Jamais o há-de ter em mim.
         Anjo és que me domina
         Teu ser o meu ser sem fim;
         Minha razão insolente
         Ao teu capricho s'inclina,
         E a minh'alma forte, ardente,
         Que nenhum jugo respeita,
         Covardemente sujeita
         Anda humilde a teu pode.
         Anjo és tu, não és mulher.

         Anjo és. Mas que anjo és tu?
         Em tua fronte  anuviada
         Não vejo a c'roa nevada
         Das alvas rosas do céu.
         Em teu seio, ardente e nu
         Não vejo ondear o véu
         Com que o sôfrego pudor
         Vela os mistérios do amor.
         Teus olhos têm negra a cor,
         Cor de noite sem estrela;
         A chama é vivaz e bela,
         Mas luz não tem. - Que anjo és tu?
         Em nome de quem vieste?
         Paz ou guerra me trouxeste?
         De Jeová ou Belzebu?

         Não respondas - e em teus braços
         Com frenéticos abraços
         Me tens apertado, estreito!...
         Isso que cai no peito
         Que foi?... Lágrima? - Escaldou-me...   
         Queima, abrasa, ulcera... Dou-me...
         Dou-me a ti, anjo maldito,
         Que este ardor que me devora
         É já fogo de precito,
         Fogo eterno, que em má hora
         Trouxeste de lá... de onde?
         Em que mistérios se esconde
         Teu fatal, estranho ser!
          Anjo és tu, ou és mulher?  
                (Almeida Garrett)

                  Sem resposta a este questionamento diante dessa mulher fatal, o fascínio que ela exerce sobre o poeta (ou sobre o homem em geral) é tal que ele se propõe a descer aos infernos em busca da amada, como Dante em busca de Beatriz ou Orfeu procurando Eurídice. Mas o Inferno nem sempre é um lugar distante, ele pode morar no poeta, se a paixão for muito intensa:
   
                                               Este Inferno de Amar
                 
           Este inferno de amar - como eu amo! -
           Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
           Esta chama que alenta e consome,
           Que é vida - e que a vida destrói -
           Como se veio atear,
           Quando - ai quando se há-de ela apagar?  

           Eu não sei, não me lembra: o passado,    
           A outra vida que dantes vivi
           Era um sonho talvez... -  foi um sonho  -
           Em que paz tão serena a dormi!
           Oh! Que doce era aquele sonhar...
           Quem me veio, ai de mim! Despertar? 

           Só me lembra que um dia formoso
           Eu passei... dava o sol tanta luz¹
           E os meus olhos, que vagos girava, 
           Em seus olhos ardentes os pus.
           Que fez ela? Eu que fiz?  - Não no sei;
           Mas nessa hora a viver comecei... 
                                        (Almeida Garrett)

             E assim a mulher se apresenta multifacetada: uma mulher-mãe devotada, bondosa, abnegada, discreta, comedida, filha obediente, esposa fiel e submissa, uma mulher servidora que atende solícita ao chamado do filho, do marido, dos amigos, santa, assexuada, uma mulher de desejos reprimido ou de prazer sublimado, para se transformar, em seguida, uma mulher moderna, independente, forte, liberada, capaz de assumir e revelar seus desejos, de ser MULHER, dona do próprio destino!
                     Mas, antes de falarmos desta última face, gostaria de me deter um pouco mais no olhar masculino e na tentativa de entender o que significa, para o homem, a natureza feminina. Frederich Novalis afirmava que "ao homem é lícito desejar as coisas sensíveis de maneira racional, enquanto à mulher é lícito desejar as coisas racionais de forma sensível... A natureza principal do homem é a secundária da mulher."
                       O olhar do homem contemporâneo, embora algumas vezes perdido em devaneios do passado (e do presente), começa a tornar-se um olhar de maior proximidade e atenção (sensibilidade), como se verifica no trecho a seguir de Miguel Esteves Cardoso, publicado, não faz muito tempo, (fevereiro de 2012) no Jornal português "O Público".
  
                Gosto mais de estar com ela a fazer as coisa mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertida. As coisas continuam a ser chatas, mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distração vivermos assim. Com tanta sorte.

              Até aqui procurei mostrar a mulher numa Literatura de perspectiva masculina, como o homem consegui vê-la, como ela permitiu que a vissem...
                 Foram necessários alguns milhares de anos para que a mulher se assumisse como autora, produtora e reveladora de seus próprios desejos. Autora de fiel retrato.
                 De Sapho, a ,ais antiga poetisa de que se tem notícia, às centenas (já seriam milhares?) de mulheres escritoras da atualidade,foi um longo percurso, igualmente impossível de restringir ao curto tempo desta fala. Embora se diga que nas Cantigas de Amigo a fala era feminina, expressando o sentimento da mulher, sabemos que quem as "escrevia" eram homens tentando interpretar o que acreditavam ser o sentimento feminino, disfarçando, em parte a sua rudeza. Afinal homens também sentem e devem como dizia Guevara nutrir sentimentos de amor e de ternura: "Déjem dicirle, a riesgo de parecer ridiculo, que el revolucionario verdadero esta guiado por grandes sentimentos de amor. (...) Hay que endurecerse, pero sín perder la ternura jamás".

                A mulher escritora da atualidade, não precisa mais passar-se por homem (como George Sand, pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant), para revelar os recantos de sua alma. A mulher hodierna pode, sem rodeios (ou depois de alguns) despir-se de seu recato diante do público leitor, como tão bem o sabe fazer Maria Teresa Horta num poema chamado Joelho:

                       Ponho um beijo
                       demorado
                       no topo do teu joelho

                      Desço-te a perna
                      arrastando
                      a saliva pelo meio

                      Onde a língua
                      segue o trilho
                      até onde vai o beijo

                      Não há nada
                      que disfarce
                      de ti aquilo que vejo

                      Em torno um mar
                      tão revolto
                      no cume o cimo do tempo

                      E os lençóis desalinhados
                      como se fosse
                      de vento

                     Volto então ao teu
                     joelho
                     entreabrindo-te as pernas

                     Deixando a boca
                     faminta 
                     seguir o desejo delas.

                         Embora a mulher moderna possa continuar, tranquila, serena, à espera do "seu homem" essa espera não é mais uma espera passiva. Insisto ainda em Maria teresa Horta:

                   À Tua Espera

                  Tranquila e serena
                  a nossa casa
                  nos quatro cantos 
                  o sol do meio-dia

                  à tua espera alegre
                  e descansada
                  injecto-me de amor 
                  às escondidas

                  Sobre a garganta passo
                  os dedos espessos
                 e a roupa uma a uma
                 vai caindo

                  para que então amor
                  com os teus dedos
                  quando vieres me vás
                  depois despindo

                   Mas se há espera, é uma espera consentida, feito escolha:
               
                                          Escolha

                   Mete-me medo a tua
                   vida antiga

                    é como um precipício ainda aberto
                    todavia sabendo que  hoje em dia
                    é a mim que procuras
                    e preferes

                     E nada mais se opõe
                     ou interfere
                     na nossa alegria retomada
                     na desordem
                             aqui
                     desarrumada
                             amor
                     com que me beijas e me queres.

                      É um prazer de domínio, de ser a eleita, e querer, num desejo mórbido, ser a melhor (ou a pior, "a mais devassa") de todas que ele conheceu:
                     
                       Morbidez

               Das outras só recordas
               o cansaço
               o nojo o vómito
               também o tédio e a náusea
               com aquela aridez de raiva
               que eu alimento com as minhas lágrimas

               E me abraças então
               Nesses momentos
               Os dedos nos meus ombros
               Violentos
               Nada há que queira ou não faça
               Tentando velada mórbida e consciente
               De todas ser a mais devassa.

                  Com que despudor esta mulher revela a consciência e força do seu querer. E como ela guarda, na memória, a presença ausente, ainda forte do amante (amado)

                                Memória

                Retenho com meus
                dentes
                a tua boca entreaberta

                e as palmas das mãos
                dormentes
                resvalam brandas e certas

                As tuas mãos no meu peito

                e ao longo
                das minhas pernas

                  Ousada, para a sua época, foi também Florbela Espanca que, no início do século XX, e a despeito do machismo reinante em Portugal, e de um catolicismo doentio, passa por três casamentos, invade a carreira jornalist e, em sonetos perfeitos, de métrica máscula, grita ao mundo seu desejo:

        Eu quero amar, amar, amar perdidamente!
        Amar só por amar: Aqui...além...
        Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
        Amar! Amar! E não amar ninguém!

        Recordar? Esquecer? Indiferente!...
        Prender ou desprende? É mal? É bem?
        Quem disser que se pode amar alguém
        Durante a vida inteira é porque mente¹

        Há uma primavera em cada vida:
        É preciso cantá-la assim florida,
        Pois se Deus me deu voz foi pra cantar!

        E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
        Que seja a minha noite uma alvorada,
        Que me saiba perder... Pra me encontrar...   
                                      (Charneca em Flor)

                      Afinal, a discussão que se adivinha para um futuro próximo, da relação masculino X feminino, não será saber quem é o mais forte ou o mais fraco, mais perfeito, mais poderoso ou submisso. Não será necessário tornar o homem ou a mulher assexuados, para criar um ser híbrido. O encontro do masculino com o feminino se dará quando cada um, diferente do outro, souber respeitar as respectivas idiossincrasias. Afinal, é na diferença que se completam.
                        Como referi no início o tema dá "pano para manga" e não se esgota facilmente. Queria, ou poderia ter falado das mulheres que se destacaram ao longo da história, na política, na ciência, mulheres que foram sujeito e objeto do fazer literário religioso ou profano, mulheres amadas, amantes, inspiradoras e inspiradas, fortes ou fracas, boas ou perversas, mas  sempre e eternamente femininas, que querem ser apenas mulheres, como no dizer literário de Adélia Prado:

                    Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado para mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgio que me cabem, sem precisar mentir.
Não sou feia que não posso casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria, 
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição para homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

         Ou ainda quando se refere ao casamento e se permite uma "submissão" que não é, senão, companheirismo.

                                             Casamento

   Há mulheres que dizem:
   Meu marido, se quiser pescar, pesque, 
   mas que limpe os peixes.
   Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
   ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
   É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
   de vez em quando os cotovelos se esbarram, 
   ele fala coisas como "este foi difícil"
   "prateou no ar dando rabanadas"
   e faz o gesto com a mão.
   O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
   atravessa a cozinha como um rio profundo.
   Por fim, os peixes na travessa,
   vamos dormir.
   Coisas prateadas espocam:
   somos noivo e noiva.

                 Creio que de agora em diante as mulheres não precisem se travestir de homens, nem sufocar seus desejos no refúgio das grades conventuais. A mulher de hoje tem um caminho aberto para se dizer, recatada, tímida ou despudorada.
                   Como autora do livro de poesia Chuva Quente, não poderia encerrar a minha fala de forma diferente: com dois poemas que a seguir transcrevo:

                      Um dia rasgarei os véus
                      E tu virás, incontinente
                      Saciar meu desejo.
                      Um dia, não hoje
                      Que ainda tenho medo.
                      Eterno mal entendido
                      Entre homem e mulher.
                      Um dia rasgarei os véus 
                      E tu verás meu vulcão incontido.

           E para encerrar esta homenagem à Mulher no seu dia internacional, espero que, cada vez mais as pessoas entendam que as questões de gênero não passam (não devem passar) pelos clichês habituais de quem é melhor ou mais forte mas que homens e mulheres se entendam e se respeitem e se completem nas suas diferenças.
                     
        Deixa que o meu olhar
        Descubra as reentrâncias 
        Do teu corpo vazio de mim.
        Deixa que as minhas mãos em concha
        Saciem minha sede da tua água,
        Do teu vinho, do teu sangue...

        Vazias as taças,
        As mão, as conchas,
        A seiva  e o sangue, 
        O vinho e a água,
        O suor e as lágrimas,
        A chuva quente,
        Vazia de mim.
                (Chuva Quente)
                 
                                         Celeste Duarte Baptista