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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Dor de uma Saudade

DESPEDIDA

Eram quatro meninas que passavam os dias brincado entre arvoredos e flores silvestres. Colhiam amoras nos silvados e transformavam em guirlandas os malmequeres colhidos a esmo. As brincadeiras eram inocentes mesmo quando se fingiam de mortas, prendendo a respiração, numa capacidade histriônica de dar inveja aos melhores atores. Uma delas fazia isso à perfeição e, certa vez, Nanda, a mais nova do grupo, chorava de verdade a amiga morta. 
As meninas cresceram, separaram-se, pela força das circunstâncias, reuniram-se tempos depois, até que um dia, se separarem por longo, muito longo tempo. Seguiram caminhos diferentes e deixaram para trás a promessa de serem, mutuamente, madrinhas dos respectivos filhos.
Nanda era, como referido, a mais nova das três irmãs e a prima andarilha, a mais velha das quatro. Apenas um ano de diferença de idade entre cada uma, o que nada significava em relação às brincadeiras de infância nem aos segredos da puberdade.
Quando crianças e até mais tarde, adolescentes, dividiam a imensa cama de casal de vastas medidas e as conversas e risos prolongavam-se até o sono as vencer e adormecerem, duas para os pés, e duas para a cabeceira da cama. Tudo era alegria e festa e, por mais acesas que tivessem sido as discussões diurnas, tudo terminava bem e dormiam como anjos amigos, sorridentes.
Um dia a prima distante chegou de longe e foi surpreendida pela triste notícia de que Nanda estava gravemente doente. Houve uma certa resistência dos familiares em consentirem no encontro, mas acabaram cedendo, diante de sua insistência. Entrou no quarto da enferma e nada, agora, fazia lembrar a menina de riso fácil. Pálida, a pele baça cobrindo-lhe os ossos era tudo o que restava de um corpo outrora rosado.
Como somos pobres de palavras, diante da inevitável proximidade da morte! Sem saber o que fazer, debruçou-se sobre aquela sombra de vida e murmurou palavras de ânimo, que lhe pareceram fúteis diante da constatação da morte iminente. Tinha insistido em vê-la, queria segurar-lhe a mão mais uma vez e, nesse gesto insuflar vida, como se fosse dotada de tais poderes ou, quem sabe, adivinhava o medo (que poderia vir a sentir) de não suportar o peso da culpa, por não estar ao lado de quem, outrora, lhe tinha proporcionado momentos de vida, inesquecíveis.
Naquele momento, com a mão de Nanda entre as suas, mal conseguiu balbuciar: “Força, minha Querida, eu te amo!”
Ao mesmo tempo que queria animar a prima e chamá-la para a vida, percebia o quase ridículo de suas palavras. Força para quê? Para percorrer o impossível caminho de volta ou para enfrentar o desconhecido da morte? Que reflexo têm as palavras que dizemos a alguém em tais circunstâncias? A quem dão paz? Aos que partem ou aos que ficam, perplexos diante de tão grande e misterioso abismo?
Uma semana depois chegou a notícia do passamento de Nanda e em meio à dor da ausência, à saudade que jamais se apagará, uma estranha paz dizia à prima que aquele derradeiro momento valera a pena.
Nanda, onde quer que o infinito te guarde, sempre estaremos contigo!